Você sabe o trabalho que dá transformar o futebol brasileiro?

É muito difícil para alguém ou para um grupo de pessoas influenciar na mudança da legislação brasileira quando o que se propõe vai de encontro aos que comandam e “desgovernam” setores importantes do nosso país. A arte da política em um estado ou em um sistema corrupto tende a afastar pessoas com boas ideias e a atrair apenas aqueles que lutam por si próprios. Apesar disso, continuar a se omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem.

Nos últimos dois anos vivi esta experiência na prática, e o que vi e aprendi superou todas as expectativas. Tudo se passa no superlativo, o tempo todo. É cansativo demais, é desgastante demais e é traiçoeiro a tal ponto que a cada visita a Brasília apenas uma coisa é certa: o desejo de não voltar. Aos sabichões de plantão - e cruzei com dezenas deles ao longo do caminho -, digo: criar o mundo ideal na cabeça ou na conversa à mesa do bar é uma delícia, porém se mobilizar e lutar por essas ideias e sofrer com as agruras do processo político é a única resistência efetiva. 

Não me tornei especialista em agitação social, Brasília ou Política. Pelo contrário, continuo sendo aquele mero sonhador que acredita, ingenuamente, que defender o óbvio não deveria dar tanto trabalho. A bandeira que levantei é simples, para não dizer insignificante, se comparada às necessidades prioritárias da população. E esta simplicidade parte de duas razões, a primeira delas é uma certa limitação intelectual, já que eu não possuo conhecimento para propor nada mais expressivo; e a segunda é de excesso emocional, já que sou apaixonado pelo futebol brasileiro e me desesperei ao enxergar a possibilidade de rasgarem um século de glórias por incapacidade administrativa e interesses escusos.

Não fui presunçoso, juro. Fui procurar quem deveria entender do assunto, dona CBF. Minha intenção inicial era apenas colaborar com aqueles senhores míopes - coitados! Queria ajudá-los a corrigir erros de rota. Em duas reuniões, fiz apontamentos, críticas e sugestões à CBF, às Federações e à televisão. Ouviram tudo que eu tinha a  dizer e não falaram nada que eu queria ouvir. 

O que me restou era o sentimento de que eu deveria me preparar melhor, levantar números que comprovassem a realidade que eu sentia na pele e que sangrava a minha carne diariamente. Era hora de construir uma proposta efetiva e mostrar que a mudança era, mais do que possível, necessária.

E foi assim que tudo começou…

A partir de então desenvolvi estudos e propostas, fiz apresentações, debates e elevei o nível de discussão sobre a urgência de se reformar o futebol brasileiro. Porém, apesar disso, ainda não era possível influenciar a decisão do sistema, eu não tinha poder nenhum sobre ele. A desmobilização dos reformistas que acreditavam em mim passou a fortalecer o status quo que mantinha sua estratégia de pressionar e retaliar os “bárbaros” de forma silenciosa, sem alarde. Não havia para onde correr, todo esforço parecia inútil, em vão, e o cenário se apresentava cada vez mais desolador. Clubes quebrados, estádios vazios, corrupção em todos os níveis, qualidade técnica abaixo da crítica, inadimplência e gestão temerária a torto e a direito. Havia apenas uma fresta de luz, um só caminho a seguir.

Os clubes, atolados em dívidas, esperavam ansiosamente pela aprovação do PROFORTE, projeto de lei que previa - pela terceira vez em duas décadas - o refinanciamento da dívida dos clubes com a União, dívidas que já somavam cerca de 4 bilhões de reais. Um projeto de lei como o PROFORTE não nasceu por acaso, era fruto do trabalho constante da bancada da bola: um grupo de cartolas - do passado e/ou do presente - que ascendeu ao Congresso pela fama trazida pelo futebol. O PROFORTE era o único caminho de atrapalhar o sono daqueles que controlavam o jogo.

Brasília seria o o nosso campo de jogo

Foram necessárias dezenas e dezenas de audiências públicas. Viagens pra cá e pra lá. Reuniões, almoços, cafés etc. A minha impressão é de que vivi em um grande circo, com a exposição e a explanação de todos os tipos de bichos e artistas, uns perigosos, outros assustadores e até uns engraçadinhos. Assisti a apresentações e atuações jamais imaginadas e vi aplausos e gritarias sem motivo algum. Descobri, inclusive, com certo pesar, que na maior parte das vezes eu é que era o palhaço da história. Chegava, falava 5 minutos, escutava por duas horas e ia embora. Perdia uma tarde, perdia um dia inteiro e, no fim, a sensação era sempre a mesma, meu poder de influencia era quase nulo.

A maior parte dos deputados e senadores desconhecia o tema que seria tratado. A quantidade de achismos é absurda e cansativa. Chega a dar ânsia de vômito. O desperdício de tempo é colossal. Constata-se, depois de não muito tempo, que seus interesses nasceram bem antes daquela discussão, suas ideias não se movem um milímetro nem pra lá, nem pra cá; estão estagnadas em algum ponto crucial de suas biografias.

Ponto um, o campo de batalha e os jogadores foram reconhecidos. Ponto dois, hora de traçar a estratégia e executar o plano.
 
Você não desiste. A questão toda da democracia é encontrar quem possa jogar no seu time. Num esforço de Sísifo empurrando pedra morro acima, você faz reuniões, visita gabinetes, publica notas, cria campanhas, tira foto, liga pra Deus, liga pro mundo, debate, questiona, aponta, discute e persiste. Chega a fazer leituras extenuantes de um “juridiquês” à beira do incompreensível para tentar entender melhor as eventuais artimanhas escondidas na redação e achar brechas que possam permitir algumas vitórias escondidas. 

Volto para casa exausto. Começa um novo round. Dessa vez nem te avisam, você começa a ser um visitante incômodo. Você voa de volta às pressas, fala com meio mundo, explica, pede opinião, corrige, ajeita e formula proposta. Envia o projeto pro fulano que é especialista aqui, e pro ciclano que é especialista de lá. Em resumo, sua proposta está sempre uma porcaria, não vai funcionar, esbarra ali, esbarra aqui - é o que dizem.

Você duvida de si. Cada salvador da pátria tem a sua fórmula secreta - sempre secreta - de como arremedar o mundo em apenas uma lei. Mas pouca gente se propõe a construir um caminho. 

Então sigo em frente. Mais correções aqui, almoços lá, ligações por Skype e a tentativa, insana, de costurar um meio termo entre todos aqueles que desejam algum tipo de mudança. A cenoura que lhes proponho é focar nos pontos mais importantes e de consenso. Esquecer o resto, por enquanto. E aí racha. Você percebe que está sozinho, não há federação, associação ou sindicato. Seja por ideologia, incompreensão, vaidade ou outros interesses, não há santo que os faça entrar na briga.
 
Segui. Os opositores bateram, os inimigos apelaram, os populistas esfolaram minha couraça e tentaram me vencer pelo cansaço e pela pressão. Os rounds foram se repetindo sem qualquer promessa de que a luta teria um fim. Mais de um ano já havia se passado. Senti a limitação e a impotência bater à porta. Não tinha para onde correr. Opiniões diversas e atravessadas, olhares, angústia, desespero. 

Nesse ritmo, lutei pela queda do PROFORTE (que previa o perdão da dívida), esquivei do substitutivo para inglês ver que não resolveria o problema, combati o contrabando do Jovair na MP dos aerogeradores (que pretendia refinanciar as dívidas sem contrapartidas), acertei finalmente um cruzado com a MP 671 e mantive a guarda enquanto tomava porrada no Congresso até o gongo soar.

O gongo soou, o PROFUT - nascido da MP 671 - foi aprovado. Apanhei tanto no final que é até difícil dizer que venci. Mas basta olhar para minha cara para ver que eu lutei. 

De novo: você sabe o trabalho que dá transformar o futebol brasileiro?

Bom Senso Futebol Clube,
Por um Futebol Melhor para Todos